20 anos conectando saúde e conhecimento: a trajetória da RNP na saúde digital brasileira
Antes de o mundo adotar a telemedicina em larga escala, a RNP já transmitia cirurgias em 4K para hospitais universitários em todo o Brasil. A assinatura do 29º termo aditivo do acordo de interveniência com o Ministério da Saúde marca um novo capítulo e amplia a responsabilidade dessa trajetória de duas décadas.
Muitos acreditam que o avanço da telemedicina aconteceu em decorrência da crise do COVID que assolou o mundo em 2020. Porém, em fevereiro daquele ano, quando a pandemia ainda engatinhava e o Conselho Federal de Medicina ainda debatia a prática médica à distância, a Rede Universitária de Telemedicina (RUTE) já completava 14 anos de operação no Brasil. A RNP criou a RUTE em 2006 como consequência natural de algo que a rede vinha fazendo desde muito antes: usar sua infraestrutura de ponta para aproximar o conhecimento médico de quem mais precisava.
"Nessa época, estávamos à frente dos americanos, pois eles ainda não estavam fazendo isso na área da saúde em escala nacional", lembra Luiz Ary Messina, coordenador nacional da RUTE
"Nessa época, a gente estava até à frente dos americanos, porque eles ainda não estavam fazendo isso na área da saúde em escala nacional", lembra Luiz Ary Messina, coordenador nacional da RUTE, líder da estratégia de saúde digital da RNP e um dos principais nomes da telemedicina no Brasil. Ele se refere às transmissões de cirurgias em 4K e 8K que a RNP realizou em hospitais universitários brasileiros anos antes de qualquer país do G7 aventurar-se no mesmo caminho. A tecnologia, desenvolvida internamente para encapsular arquivos de altíssima resolução, tinha um propósito preciso: permitir que um médico especialista em São Paulo, ou qualquer outro estado do Brasil, operasse enquanto estudantes em todo o país assistiam a cada detalhe, com a clareza da alta definição, em telões onde se podia identificar pequenos sangramentos ou distinguir entre os materiais usados durante a operação. “Além de receberem explicações sobre os procedimentos adotados, perguntarem e receberem respostas inclusive do próprio cirurgião”, detalha Messina.
Uma rede de colaboração que o mundo tenta replicar
Aquelas transmissões pioneiras não foram apenas um feito técnico, mas o ponto de partida de uma rede de colaboração científica em saúde que hoje conta com 142 instituições e 32 grupos de interesse especial. As especialidades cobrem frentes que vão da mastologia e oftalmologia à saúde bucal indígena, genética médica e doenças raras, reabilitação, saúde mental, cuidados paliativos e, em breve, a telecirurgia robótica.
A repercussão ultrapassou fronteiras. Estados Unidos, Japão, Noruega, Rússia, Austrália e países africanos buscaram a RNP para entender como uma rede acadêmica havia conseguido criar, manter e expandir uma comunidade científica ativa e colaboração remota na educação em saúde, estimulando a telemedicina numa extensão continental como o Brasil. "É uma atividade muito difícil de se conseguir, que teve a adesão dos professores, cientistas e especialistas em saúde. E nós estamos agora comemorando os 20 anos da RUTE", diz Messina.
Ao longo desse tempo, a rede foi se diversificando. Grupos de interesse especial nasceram, amadureceram e, em alguns casos, duram há mais de 15 anos, como o de saúde da criança e do adolescente, hoje em parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria. A expansão foi além das fronteiras nacionais: hoje existe a RUTE América Latina e Caribe, e a sétima reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), realizada no ano passado em São Tomé e Príncipe, aprovou a criação da rede de saúde digital da CPLP, com a RNP como protagonista.
O acordo que formaliza 20 anos de trajetória
Em maio de 2026, o Ministério da Saúde, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e a RNP assinaram o 29º termo aditivo do acordo de interveniência, publicado em diário oficial, consolidando uma parceria com alcance inédito.
"A RNP e o Ministério da Saúde agora têm a liberdade e a responsabilidade para uma atuação muito mais forte na área da saúde", explica Messina.
O que muda na prática é significativo. Até então, todos os planos de trabalho entre a RNP e o Ministério da Saúde precisavam passar por aprovação do MCTI, um processo que, além de demorado, exigia uma camada extra de intermediação. Com o novo acordo, essa responsabilidade passa diretamente para o Ministério da Saúde e a RNP. "A RNP e o Ministério da Saúde agora têm a liberdade e a responsabilidade para uma atuação muito mais forte na área da saúde", explica Messina.
O acordo já começa com ações concretas: apoio à Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIG), suporte ao monitoramento e formação de médicos no Programa Mais Médicos pelo Brasil, com a parceria da UNASUS e da Secretaria de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde, e participação da Rede Genomas Brasil, iniciativa da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde na rede de e-Ciência provida pela RNP.
Por que isso importa agora
Esse momento não é mera coincidência, pois três movimentos convergem ao mesmo tempo.
O primeiro é a expansão do sistema RNP para o campo da saúde. Em abril deste ano, a RNP participou da reunião da Comissão Intergestores Tripartite do Ministério da Saúde, com o lançamento pela SEIDIG/Ministério da Saúde do edital de chamamento de secretarias estaduais de saúde para adesão ao sistema. O próximo passo já está sendo discutido: um edital equivalente para secretarias municipais, alcançando progressivamente os 5.570 municípios brasileiros, naqueles estabelecimentos de saúde com ensino, cadastrados no CNES Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde.
O segundo é a retomada do Comitê Gestor do PRO-RNP, o Programa de Evolução e Manutenção da Rede Acadêmica, que havia sido extinto no governo anterior. Sua reativação garante que os planos de trabalho entre a RNP e os ministérios de Ciência e Tecnologia, Educação, Saúde, Cultura, Defesa, Comunicação e outros que queiram se integrar ao Sistema RNP, tenham o respaldo formal necessário para avançar com velocidade.
O terceiro é o SUS digital: o Ministério da Saúde conseguiu a adesão de todos os 5.570 municípios e os 27 estados na implantação da plataforma. Esse é um enorme feito da SEIDIG no caminho da transformação digital na saúde. Ele permite avaliar e melhorar os processos, capacitar profissionais, monitorar e aumentar seus conhecimentos e suas competências no mundo digital, além de apoiar de forma remota com a orientação de especialistas. Todos estão comprometidos, com planejamento feito e recursos iniciais aportados. A RNP está no centro dessa infraestrutura e, com o acordo consolidado, seu papel fica ainda mais claro.
Serviços seguros, conhecimento que volta para a sociedade
Há um princípio que atravessa toda a trajetória da RNP na saúde: tudo o que é desenvolvido nasce da academia e dos polos de desenvolvimento e retorna à sociedade como serviço. Os projetos são criados e geram soluções que chegam à comunidade e ao SUS por meio do RNP+, o canal de ofertas da RNP que reúne e disponibiliza serviços digitais desenvolvidos no ambiente acadêmico e de pesquisa brasileiro. Trata-se de um caminho direto entre a inovação produzida e quem, na ponta, precisa de acesso seguro e simples a essas tecnologias.
"O dado é do paciente. Temos que manter essa privacidade", lembra Messina.
Isso tem uma implicação direta no dado mais sensível que existe: o prontuário e a jornada de cuidados integrados do paciente. Num cenário em que médicos chegaram a usar WhatsApp para teleconsultas durante a pandemia, prática que o Conselho Federal de Medicina não aceita, a questão envolve responsabilidade ética e legal. O RNP+ existe justamente para oferecer uma alternativa à altura, trazendo soluções desenvolvidas com rigor acadêmico, disponíveis por meio de um canal seguro e acessível a toda a população. O espaço oferece ainda o debate e a formação por meio das mais variadas iniciativas de fomento da pesquisa e do desenvolvimento.
A RNP já opera cinco Centros Operacionais de Segurança Cibernética no Brasil, em Brasília, Amapá, São Paulo, Piauí e Rio Grande do Sul, com meta de chegar a 27. Um piloto realizado no Instituto Nacional do Câncer (INCA) durante quase um ano mostrou o que é possível: o diretor-geral da instituição incorporou as práticas de segurança e privacidade de dados em 30 setores internos, criando uma cultura de proteção de dados que vai muito além da tecnologia. "O dado é do paciente. Temos que manter essa privacidade", lembra Messina.
O que vem a seguir
Esta é a primeira de uma série de artigos sobre a estratégia de saúde digital da RNP. Nos próximos textos, vamos explorar como a rede está expandindo sua infraestrutura segura para secretarias estaduais, municipais e hospitais universitários e de ensino, e como o V4H, primeira solução de saúde digital no catálogo da RNP nasceu dentro de uma universidade federal e já está transformando o atendimento e a formação médica no Brasil.
A transformação digital na saúde está em plena evolução.
Saiba mais sobre as soluções de saúde digital da RNP em rnpmais.rnp.br







